O cenário dos Cursinhos Populares de Minas Gerais, em 2019

No último mês, o Equale, em parceria com os cursinhos populares Ação Afirmativa, Doar Educa, Emancipa, Lumo, Milton Santos, Estude Vest (FUMEC), Vila Marçola, fez uma inscrição unificada para os cursinhos populares de Minas Gerais. Com esse trabalho, descobrimos mais sobre a demanda por cursinhos, o perfil do estudante que nos busca e suas condições socioeconômicas. Compartilhamos com vocês o que descobrimos:

Público-alvo

A inscrição unificada foi impulsionada pelas redes sociais durante quinze dias, e foi noticiada na rádio América. Quase 10.000 pessoas tiveram acesso ao anúncio publicado nas redes sociais, 1400 acessaram as informações sobre os cursinhos, e 440 realizaram inscrições. A partir dos dados fornecidos nesse processo, conseguimos avaliar o perfil das pessoas que buscam os cursinhos populares.

Gênero, raça, estado civil

Mais de 80% das pessoas que buscam os cursinhos populares são mulheres, e 72,2% se autodeclaram negros ou pardos. Aproximadamente 25% das pessoas se autodeclaram brancas, e nove pessoas se declararam amarelas ou indígenas. Mais de 90% dos estudantes que se inscreveram eram pessoas solteiras.

Região de origem

Os dados da inscrição evidenciam que os cursinhos populares localizados em Belo Horizonte cumprem um importante papel na educação de jovens da Região Metropolitana. Aproximadamente 60% das inscrições foram de belo-horizontinos. Os outros 40% correspondem a uma demanda proveniente mais de 38 cidades de Minas Geras, a saber: Baldim, Betim, Brumadinho, Caeté, Capim Branco, Conceição do Mato Dentro, Confins, Contagem, Dom Joaquim, Esmeraldas, Florestal, Ibirité, Igarapé, Itaguara, Itatiauçu, Jaboticatubas, Juatuba, Lagoa Santa, Mário Campos, Mateus Leme, Matozinhos, Nova Lima, Nova União, Pedro Leopoldo, Raposos, Ribeirão das Neves, Rio Acima, Rio Manso, Sabará Santa Luzia, São Joaquim de Bicas, São José da Lapa, Sarzedo, Taquaraçu de Minas e Vespesaniano.

Apesar da grande dispersão entre as cidades da região metropolitana, as cidades que mais fizeram inscrição, foram Belo Horizonte, foram Contagem (8,2%), Ribeirão das Neves (6,2%), Santa Luzia (4,8%), Sabará (3,6%) e Ibirité (3,2%).

A inscrição unificada também recolheu informações sobre os bairros de origem dos estudantes. Apesar disso, dada a grande variedade de origens, as informações ainda estão sendo processadas.

Meio de transporte e custo com deslocamento

Quatro em cada cinco dos inscritos utilizam o ônibus como meio de transporte, em Belo Horizonte. Aproximadamente 10% fazem seus deslocamentos diários a pé. Pouco mais de 3% dos estudantes se deslocam de metrô. O restante, que corresponde a mais de 5%, utiliza formas de transporte variadas como bicicleta, carro, moto ou van.

Quando perguntados sobre os custos diários de transporte por mês, mais de 31,9% responderam que gastavam de R$100,00 a R$200,00 por mês. Provavelmente por causa do número de inscritos provenientes de outras cidades, 28,5% informaram que gastam mais de R$400,00 por mês com deslocamentos. Um quinto apontou que gasta de R$50,00 a R$100,00 e 13,9%, de R$200,00 a R$300,00.

A partir da inscrição unificada, foi ainda possível avaliar qual a região pela qual os estudantes mais se interessaram em estudar. No formulário, os estudante podiam assinalar, entre os cursinhos participantes, todas as opções de localizações que atendiam suas necessidades. Os cursinhos na região central de Belo Horizonte atraíram inscrições de 54% dos estudantes. A região da Pampulha e da Serra vieram próximas, em segundo e terceiro lugar, sendo de interesse para 31% e 32% dos inscritos, respectivamente. Cursinhos no Barreiro atraíram a atenção de aproximadamente 20% dos inscritos e, em Contagem. Vespasiano e Ibirité atraíram a atenção de 10% do público, cada uma.

Mais de 83% dos estudantes afirmaram que precisariam de auxílio-transporte para frequentar as aulas nos cursinhos.

Ao cruzar as informações sobre a origem dos estudantes, os meios de transporte e os custos com deslocamentos, é possível notar a importância da arrecadação de bolsas de auxílio-transporte para os estudantes, como o Equale vem fazendo. Mesmo assim, é possível perceber que a educação não será direito de todos enquanto não houver alternativa ao transporte público pago para os estudantes. Em vista, buscaremos, ao longo do ano, incluir os estudantes no Transporte Escolar, e seguir incentivando a abertura de cursinhos populares nas cidades de origem dos estudantes da RMBH.

Horários de aula

Os estudantes foram perguntados quanto ao horário de aula que seria mais interessante para eles. Mais de quarenta por cento dos estudantes apontou que o melhor horário seria aos dias de semana a noite. Surpreendentemente, quase 50% dos estudantes apontou a disponibilidade para o turno da tarde. Essa disponibilidade foi uma descoberta importante, dado que a maioria dos cursinhos populares oferece aulas apenas no turno da noite ou aos sábados, ao longo do dia. O argumento comum, é a possibilidade de atendimento a trabalhadores ou pessoas que estudam em tempo integral.

A descoberta dessa disponibilidade permite avaliar a expansão dos cursinhos para o turno da tarde, visando atender a comunidade egressa das escolas públicas e desempregada, liberando vagas noturnas para o estudante trabalhador.

Motivações

As principais motivações para estudar em um cursinho popular estão associadas ao sonho de entrar no curso superior, e a a impossibilidade arcar com os custos de um cursinho particular. Como a pergunta para os estudantes foi feita de forma aberta, não é possível atribuir percentuais para cada motivo. Alguns estudantes apontam ainda que vinha estudando sozinhos, mas que, ao saber da existência dos cursinhos populares, viram uma alternativa:

“Até hoje eu não sabia da existência de cursinhos populares, como não tenho condições para pagar um cursinho particular eu sempre estudei por conta própria, porém esse ano eu quero uma ajuda extra para me sair melhor no Enem e acredito que um cursinho popular pode me dar o suporte para ter uma boa nota na prova”.

Condições socioeconômicas

Um extenso questionário socioeconômico foi adicionado ao formulário de inscrição. Esse questionário nos dá uma ideia sobre o público que está sendo atendido pelos cursinhos populares. Todas as informações serão confirmadas durantes as matrículas nos cursinhos, garantindo o público atendido gratuitamente e pelo voluntariado, de fato, tenha necessidade de contar com essas iniciativas.

Aproximadamente 65% dos estudantes moram em casa ou apartamento quitados, com suas famílias. Outros 22% moram em casas ou apartamentos alugados com suas famílias.

Quando perguntados sobre com quem moram, 45% disseram morar com o pai, 75,9% com a mãe, 6% com marido/esposa, 6% com filhos, 18% com outros parentes. Nesse sentido, 31% dos inscritos disseram morar com mais de 4 pessoas, 21% com 3 pessoas, 18,9% com 2 pessoas e 15% com 5 pessoas.

Entre os inscritos, 7%, ou 30 pessoas, possuem filhos. Isso aponta para o baixo atendimento dos cursinhos a pessoas que já formaram família. Algo que pode ser apontado é a falta de medidas específicas para oferecer atendimento a esse público.

Quanto à escolaridade dos pais, temos a seguinte composição:

  • 27% estudaram até a 4ª série;
  • 19% estudaram até a 8ª série;
  • 8,7% concluíram o Ensino Médio;
  • 2,3% têm ensino superior incompleto;
  • 2,7% têm ensino superior completo.

Quanto à escolaridade das mães, temos a seguinte composição:

  • 19,8% estudaram até a 4ª série;
  • 17,6% estudaram até a 8ª série;
  • 9,3 têm o Ensino Médio Incompleto;
  • 34% concluíram o Ensino Médio;
  • 3,9% têm ensino superior incompleto;
  • 8% têm ensino superior completo.

O dado confirma o que já é consenso entre os voluntários de cursinhos populares: o estudante de cursinho popular aprovado em uma faculdade, geralmente é o primeiro de sua família a ingressar no Ensino Superior.

Próximo passos

O Equale está preparando um relatório contendo todas as informações extraídas a partir da Inscrição Unificada, que será disponibilizada aos cursinhos participantes, bem como publicado em nosso site para referência e pesquisa. Os dados colhidos serão apresentado na próxima reunião de cursinhos populares de Minas Gerais, a ser realizada no dia próximo sábado, 23/02.

As inscrições colhidas estão sendo repassadas para os cursinhos populares mais próximos da residência de origem dos estudantes. Eles serão, então, matriculados. Apesar disso, sabemos que há um déficit de vagas, de forma que nem todos conseguirão vagas. O Equale continuará trabalhando para incentivar a abertura e ampliação de cursinhos nas áreas onde identificou maior demanda.

Agora começamos a nos preparar para a inscrição para o 1º Simulado Unificado dos Cursinho Populares de Minas Gerais . No dia 09/02, o Equale fez uma roda de conversa sobre o simulado com um grupo de professores voluntários, que está preparando as questões. A avaliação, além de treinar os estudantes para a realização da prova do ENEM, deve oferecer importantes dados acadêmicos sobre os estudantes matriculados nos cursinhos populares.

As inscrições poderão ser feitas em: https://www.sympla.com.br/1-simulado-unificado-dos-cursinhos-populares—2019__462082

 

Ainda não conhece os cursinhos populares?

Os cursinhos populares são iniciativas mantidas por voluntários que oferecem ensino gratuito a estudantes de baixa renda, provenientes da escola pública. Por meio de aulas de preparação para o ENEM, visam aumentar as chances de aprovação do estudante em um curso superior, e oferecer educação cidadã e transformadora para seus estudantes.

Você pode conhecer mais a rede acessando o site cursinhospopularesmg.strikingly.com

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